Adeus a Irving Penn (1917-2009)

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Irving Penn Turning Head, Nova Iorque, 1993
© Da colecção Rex, Inc.

Morreu ontem em Nova Iorque Irving Penn, um dos mestres da fotografia de moda e do retrato do século XX, um dos grandes cultores do minimalismo cool e do sujeito fotográfico isolado do seu contexto, quer se tratasse do mais lânguido modelo ou da mais enlameada figura da Nova-Guiné. Acreditava que era contra um pano de estúdio onde o retratado melhor revelava a sua mais pura natureza. O anúncio do desaparecimento de Penn, que contava 92 anos, foi feito por Roger Krueger, o seu assistente de fotografia.

Irving Penn nasceu em Plainfield, Nova Jérsia, em 1917. Formou-se na Pennsylvania Museum School of Industrial Art, onde conheceu Alexei Brodovitch, fotógrafo, designer e um influente professor que deu aulas a Diane Arbus, Eve Arnold, Richard Avedon e Gary Winogrand. É Brodovitch quem leva Penn como assistente para a revista Harper’s Bazaar, em 1939. Dois anos depois, começa a trabalhar para os armazéns Saks e viaja para o México, onde fotografa à maneira de E. Atget e W. Evans. Apesar deste interesse pela fotografia, queria ser pintor e é como designer gráfico que entra para a Vogue, em 1943, depois de ter conhecido Alexander Liberman. Conta a agência Associated Press que os fotógrafos da casa ficaram surpreendidos com a sua maneira de apresentar as imagens nas páginas da revista e o director de arte convida-o a fotografar uma capa. Desde então, não mais parou de fotografar. Ao longo dos anos 40, consolida a sua carreira na fotografia de moda e, no final da mesma década, começa a retratar artistas, escritores, gente famosa e gente anónima num estilo muito depurado e simples que se opunha ao retrato captado “em contexto”, carregado de matéria, mais em voga na década precedente à guerra. O The Getty Center de Los Angeles expõe actualmente uma série de retratos ligados às profissões captados em Nova Iorque, Paris e Londres. (galeria aqui)

No início da década de 50, nos anos que passou em Paris, o seu estilo austero (mas ao mesmo tempo chic e carregado de glamour) continuou a ser vincado colocando modelos e acessórios de moda contra fundos lisos e limpos à procura de grandes contrastes e silhuetas perfeitas. Os nus desta época embarcam no mesmo estilo, com planos aproximados e iluminação forte que resultam em peles lívidas e linhas vincadas. Penn ganhou reputação e encontrou uma linguagem particular que para a época era tida como radical. Acreditava que o seu sucesso como fotógrafo de moda estava na preocupação com o leitor e não com o modelo.

Para além da moda, um dos fascínios de Penn passava por dar vida e significado a todo o tipo de bric-a-brac encontrado, fruta podre e roupa velha. Nestas fotografias de natureza-morta escolheu a cor para os objectos de luxo e para alimentos refinados e o preto e branco para os objectos apanhados nas ruas de Manhattan. Parte deste trabalho foi apresentado no Metropolitan Museum of Art, em 1977. “Fotografar um bolo pode ser arte”, disse em 1953 na inauguração do seu estúdio, de onde saiu trabalho até ao século XXI. Em 1975, o Museum of Modern Art expôs um conjunto de 14 grandes ampliações de beatas de cigarros. A mostra causou polémica, com alguns críticos a afirmarem que se tratava de uma “poderosa elevação do banal ao monumental” e outros a garantirem que não passava de um sinal de “auto-indulgência”.

Entre 1964 e 1971 Penn concretizou alguns projectos relacionados com retrato em lugares remotos, fora do universo da moda, mas utilizando o mesmo estilo e as mesmas técnicas de iluminação (transportou consigo as ferramentas essenciais que utilizava em estúdio). Fotografou desde indígenas no Peru, na Nova-Guiné e em Marrocos a hippies em São Francisco. Era um fotógrafo que gostava de revelar as suas imagens. Perseguia a “cópia perfeita”. Passou “incontáveis” horas na câmara escura a apurar soluções químicas que lhe fizessem surgir imagens na sua técnica preferida, a platinotipia (também conhecida por platina/paládio).

Irving Penn era irmão de Arthur Penn, realizador de “Bonnie and Clyde”. Em 1950, casou com uma das modelos que mais gostava de fotografar, Lisa Fonssagrives, com quem teve um filho, Tom. Doou fotografias à National Portrait Gallery e ao National Museum of American Art, ambos de Washington, e os seus arquivos estão depositados no Art Institute of Chicago. A sua morte, encerra mais um ciclo da época fulgurosa da fotografia de moda de meados do século XX, depois do desaparecimento de outros herdeiros desse labor, nomeadamente Richard Avedon (1923-2004) e Helmut Newton (1920-2004).

Fonte: Arte Photographica

~ por Raphael Fraga em 09/10/2009.

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